Brasil pelos olhos de um alemão

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Serra Gaúcha

       Sem planejar, eu pude visitar um dos países mais interessantes em que já estive até agora. Não foi planejado porque nada vem como a gente imagina.
      Em maio de 2016 desembarquei em Porto Alegre, minha namorada e sua mãe vieram me buscar, e a aventura começou. Primeiro tivemos de ir a uma estação governamental para pegar o carro porque a polícia levou o carro do aeroporto. Esta foi a primeira aventura para mim no Brasil. Esperamos para pegar o carro e testemunhei o processo para pegar o carro de volta: foi caótico, mas fácil ao mesmo tempo. Basicamente completamente o oposto de como seria na Alemanha. A maioria das coisas daqui são super bem organizadas, mas não são fáceis. Exceto os trens, eles nunca estão no tempo e na maioria das vezes é um desastre viajar de trem na Alemanha.

Há alguns meses...

      Eu conheci a minha namorada na Internet, este "encontro" então mudaria minha vida. Ela é gaúcha e brasileira. Sou nórdico alemão. Origens tão opostas, mas conexões internas tão profundas. Nesse ponto eu não sabia muito sobre o Brasil, e pra ser sincero, eu não estava muito interessado em viajar logo para este país enorme. Claro que eu estava interessado em viajar, mas o meu foco naquele momento era a Austrália e América do Norte e Central. Depois que minha namorada passou o inverno comigo na Europa e me contou tanto sobre seu lar e toda essa diversidade em seu país era óbvio que eu iria ao Brasil para visitá-la. Claro que eu sabia que há uma grande floresta tropical, tribos indígenas grandes metrópoles... E, devido à má imprensa, crime, drogas e favelas. Mas eu não sabia mais sobre o Brasil do que a média dos europeus: Samba, Rio, Carnaval. Alguns talvez também associem florestas tropicais e índios ao Brasil, mas para ser honesto eu não sabia muito mais que isto sobre o país.
      Depois que desembarquei em São Paulo, voei diretamente para Porto Alegre e passei meus primeiros dias no Rio Grande do Sul, no apartamento de minha namorada. Uma das coisas mais impressionantes para mim foram todos aqueles cachorros de rua. Não temos isso no norte e centro da Europa. As pessoas daqui têm uma relação muito diferente com os cães. Todos vivem com as pessoas dentro das casas, e eles fazem parte da família. Os únicos cachorros grandes que vi nos primeiros dias foram aqueles amarrados com coleiras nos jardins para guardar a propriedade.

Brezel foi nosso cachorro temporariamente. Gabe o resgatou das ruas e nós tomamos conta dele até encontrarmos um bom lar pra ele.

       E preciso falar sobre o meu segundo "choque cultural". Parecia-me que as casas brasileiras são mais seguras do que nossas prisões alemãs. Isso me deixou, especialmente nos primeiros dias, um pouco assustado, e minha namorada teve que me explicar onde era seguro para ir. Claro que temos na Europa Central também áreas e cidades perigosas, mas na maioria dos lugares você pode sair na rua, mesmo durante a noite, sem medo de ser assaltado ou roubado. A maioria das pessoas do norte e centro da Europa cresceram em uma “ilha de segurança” e quando vamos para a América do Sul este é, no primeiro momento, um pouco chocante, de verdade. E honestamente, mesmo depois de três meses, por vezes, eu ainda tinha um leve mau pressentimento quando saia ao ar livre. Não porque aconteceu alguma coisa. Fui roubado duas vezes na Alemanha e testemunhei algumas outras coisas ruins, mas nada aconteceu comigo nos três meses no Brasil e foram os três meses mais pacíficos que já tive. O que me dava um pressentimento assustador foram todas as "casas prisões". Sabendo que eles construíram cercas de alta segurança não apenas por diversão. É impressionante para mim o quão diferentes são as circunstâncias de segurança para as pessoas ao redor do mundo, e percebi o quão sortudo eu sou por crescer nesta ilha de segurança.
      Claro que houve muitas mais impressões me atingindo nas primeiras semanas. A paisagem, as plantas, os animais. Tudo era tão diferente. Apesar de eu estar na "Área Européia" do Brasil, como algumas pessoas me falaram sobre o Sul. E, realmente, eu não esperava ver tantos rostos europeus no Brasil. Muitos imigrantes polacos, alemães e italianos. Até mesmo as tradições, línguas e arquiteturas que os imigrantes trouxeram.

Arquitetura alemã em Feliz-RS.

      Outra coisa realmente notável para mim é que você escuta apenas a língua portuguesa nas ruas, mesmo nas grandes cidades. Nas cidades alemãs você escuta diariamente muitas línguas diferentes. Turco, árabe, francês, espanhol, algumas vezes português, inglês, italiano e, claro, alemão. Mesmo em cidades menores. Também, geralmente, aqui todos falam mais outra língua além de sua língua nativa, pelo menos o inglês, o espanhol ou o francês.
      Claro que não esperava que os brasileiros falassem inglês comigo, mas era algo que eu nunca havia visto antes. Às vezes era difícil me comunicar e na maioria das vezes minha namorada tinha que traduzir tudo. Mas, apesar de, obviamente, haver mais línguas e estrangeiros na Alemanha, parece que a diversidade brasileira é mais unida. Há influências de muitas culturas, mas todas estão unidas sob a bandeira brasileira e a mesma língua. Na Alemanha não existe este sentimento de "unidade". Talvez a razão seja porque a imigração na Alemanha é mais jovem, então espero que um dia possamos desfrutar da mesma unidade que os brasileiros têm. É lindo.
      Também aprendi que os brasileiros têm um humor muito original. O humor brasileiro realmente funciona diferente do humor europeu ou alemão. Em festas ou em reuniões familiares, as pessoas riem a maior parte do tempo e falar sobre coisas mais simples. É lindo ver como eles podem se divertir. Os europeus muitas vezes falam sobre tópicos mais profundos, desde sobre como a sociedade afeta as coisas até questões filosóficas. O humor europeu, e especialmente alemão, parece ir um pouco "mais profundo" na mente. Às vezes as pessoas estrangeiras chamam os alemães de frios e sem graça, mas não é verdade. Os alemães podem se divertir muito e são muito bem-humorados. Apenas temos um tipo de humor muito especial. Você tem que saber muito sobre o modo de vida alemão e europeu para entender o humor daqui. 

Amigos e familiares frequentemente se encontram pra jogar cartas ou jogos de tabuleiro! Curitiba-PR.

      No Brasil é mais fácil entrar em contato com as pessoas, porque elas têm uma mente muito aberta e você pode rir muito sobre as coisas mais simples com as pessoas. Às vezes eu temia que os brasileiros pensassem que eu não tinha humor, mas como eu estou acostumado ao tipo de humor europeu, nem sempre foi fácil entender as "zoeiras" brasileiras. Mas todos foram super legais comigo e ficaram, por vezes, impressionados em ver "um estrangeiro" e estavam muito interessados em saber ​​sobre mim. Eu me diverti muito, apesar de alguns receios no começo, em que eu me perguntava se eu conseguiria entendê-los. Eu ri muito, apesar de eu não poder entender todas as palavras. Eu tive que rir porque os brasileiros riem tanto!
      Outra diferença resultante desta característica é a amizade. Percebi que alemães e brasileiros têm, com exceções, outro tipo de relacionamento com seus amigos. No Brasil, em geral, é super fácil encontrar novas pessoas e fazer amigos, mas às vezes eu percebi e aprendi com conversas, que nem todas essas amizades são profundas. Na Alemanha pode ser um pouco mais difícil conhecer novas pessoas. Não porque os alemães são hostis, nós só somos um pouco céticos e precisamos ter certeza de que a pessoa é confiável. Precisamos de um tempo para nos aproximar, mas assim que você se aproxima, os alemães têm as amizades mais profundas, em minha opinião. Assim que você fizer um amigo aqui, você pode confiar nele 100%. Seu amigo daria a vida por você. Claro que há exceções, de ambos os lados. Mas ao fim de tudo, eu acho que isso resume muito sobre as pessoas de nossos dois países.

Porto Alegre-RS.

     Sou muito feliz por ter conhecido a minha namorada. Ela é a pessoa mais inspiradora e interessante que conheci e sou grato porque ela me fez visitar este grande país, com todas essas pessoas amigáveis ​​que fizeram a minha visita de três meses se tornar um período inesquecível. Obrigado, Brasil. Vocês são bem-vindos na Alemanha!


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